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    11 DEZEMBRO 2014

    Queira-se ou não, diga-se o que disser, mas as relações entre pessoas, a forma como elas se apresentam e se relacionam com o mundo, influenciam, em grande medida, as nossas escolhas. É normal, é humano, é mesmo assim. Quem disser o contrário, andará equivocado. Nós decidimos, optamos ao coberto de estímulos emocionais, sentimentais. Muitas vezes, quase sempre, injustificáveis.

    Feita a nota introdutória da homilia, devo dizer que, desde algum tempo, nutro um carinho especial por este projecto do Dão. Um projecto pequeno, com uma carga familiar muito forte. E tal como o nome diz e indica, é da responsabilidade de três irmãos. E num mar de tantas propostas disponíveis, por vezes iguais entre si, conseguiram fazer um vinho que (me) enche as medidas, pela limpeza, pelo carácter que possui, pela capacidade de envolver. Um vinho que comprova e prova que é possível fazer (muito) bem, sem grandes apetrechos, sem grandes delírios, tornando-o grande.

    Rematando as pontas soltas, urge levantar a seguinte questão: se os mentores em causa fossem indivíduos chatos, pretensiosos, carrancudos, teria bebido o vinho? Pelo menos uma vez, mais não. É sempre preferível beber, recordando bons episódios, boas conversas, caras de gente simpática.


  • 23 de outubro de 2018

    Palwines, “vinhos de garagem” do Dão
    Nas minhas deambulações pela magnífica representação dos vinhos do Dão no Mercado dos Vinhos do Campo Pequeno, deparei-me, a certa altura, com um cartaz que dizia: “Pallwines, Grande Vinho do Dão 2012, Medalha de Ouro, CVR Dão”. Como não conhecia, foi motivo mais do que suficiente para parar, provar e conversar. Fui recebido, ao que julgo, pelo produtor, que me perguntou que vinhos queria provar. Como sou praticamente imune aos prémios dos concursos e às notas de prova dos gurus, achei melhor provar dois vinhos, um branco e um tinto, que me despertaram de imediato a curiosidade. Diziam, apenas “Centenariae Vineae” e, em letras pequenas “Vinha do Canez”. O branco era de 2014 e o tinto de 2013. Como o nome sugeria, as uvas de ambos eram provenientes de uma vinha muito velha, quiçá centenária, situado no coração do Dão, em pleno concelho de Nelas.


    O primeiro que provei foi, naturalmente, o branco e logo que o levei ao nariz percebi que era um vinho especial, a entrar na maioridade e com uma complexidade aromática que faria corar de vergonha quase todos os brancos de 2017 que havia provado antes. Quando deparo com vinhos desta estirpe costumo fazer um esforço para controlar a expectativa e só levar o vinho à boca depois de imaginar as sensações gustativas que a prova olfactiva sugere. São vinhos que têm de se provar devagar e com atenção. Enquanto o meu subconsciente ia processando as sensações olfactivas que tinha sentido perguntei ao meu interlocutor se a vinha era grande e quais as castas dominantes. A resposta foi inesperada, pois disse-me que mais do que uma vinha era “um quintal”, cujas cepas velhas davam uvas para produzir 300 garrafas de branco e pouco mais de 2000 de tinto. Entrava, portanto, no mundo da Bela Adormecida e dos sete anões, onde tudo é minúsculo. As castas eram, naturalmente, muitas e variadas, havendo, como costuma ser norma nestes casos, cepas de castas desconhecidas. Havia Encruzado (muito pouco), Uva Cão, Bical, Dona Branca, Cercial, etc., testemunhando que no início do século passado o encepamento seria bastante diferente do actual. Quando levei o vinho à boca constatei as boas expectativas criadas pela prova olfactiva, embora achasse que a surpresa seria bem maior se tivesse um pouco mais de frescura de boca, isto é, tivesse mais meio a um grama de acidez total. No entanto, a sua complexidade era um hino ao potencial das vinhas centenárias e, também, aos brancos do Dão.
    Seguiu-se o tinto de 2013, cuja linda cor rubi abria as melhores expectativas. Não estava, felizmente, muito marcado pela madeira permitindo que os aromas primários emergissem do copo e mostrassem a complexidade e distinção de um grande tinto do Dão. Era tempo de refrear a vontade de o levar à boca e perguntar ao meu interlocutor quais as castas tintas dominantes. Disse-me que uma das mais representativas era a Baga, com mais de 20% do encepamento. (Ainda hoje não percebo por que razão esta casta foi desacreditada há cerca de 40 anos, sabendo-se que era responsável por alguns dos grandes vinhos Dão, principalmente na zona de Vila Nova de Tazém). Também havia Touriga Nacional, Bastardo (tradicional nas vinhas antigas, com o objectivo de dar grau), Tinta Pinheira, Jaen e, para minha grande surpresa, Touriga Franca! A convicção com que o meu interlocutor disse o nome da casta não me deixou dúvidas, levando-me a pensar que será necessário rever a história do intercâmbio de castas entre o Douro e o Dão, que quase sempre se fez do Dão para o Douro. Quando levei o vinho à boca foi como se tivesse recuado meio século no tempo, recordando os sabores e a elegância dos velhos tintos do Dão. A frescura de boca, a delicadeza da textura, a jovialidade dos taninos e a complexidade aromática retronasal confirmavam-me que estava perante um clássico do Dão, embora o estilo fosse muito distante dos vinhos que ganham medalhas de ouro em concursos. Depois da prova destes dois vinhos fiquei a pensar se não teria sido melhor o produtor ter feito um único vinho a partir das uvas da “vinha do Canez”, como se fazia há cem anos atrás. Seria um clarete, mas certamente tão desafiante quanto qualquer dos vinhos provados. Mas compreendo a sua opção, não só por os claretes (mesmo de vinhas centenárias) estarem fora de moda, mas também por ser justificável perceber que vinho branco e vinho tinto seria possível fazer.
    As vinhas centenárias continuam a proporcionar uvas fantásticas um pouco por todo o País, constituindo uma enorme mais-valia para qualquer produtor ou denominação de origem. No entanto continuam a ser dizimadas a ritmo acelerado, para dar lugar a vinhas do século XXI, quase todas iguais e não respeitando os encepamentos antigos. Aceito que sejam arrancadas, principalmente se já não produzirem de forma rendível, mas se tal for uma inevitabilidade então que se estudem as castas presentes detalhadamente e seja recolhido o seu património genético antes do arranque. Deixo esta sugestão ao Presidente da CVR do Dão, um distinto vinhateiro da região, que compreenderá o alcance deste estudo. E não será difícil ou custoso fazê-lo, pois há muitos jovens na Escola Superior Agrária de Viseu desejosos de pôr à prova a sua paixão pelo Dão.

  • É o mais pequeno dos cerca de 200 produtores que existem no Dão. Pedro, Ana e Luís são três irmãos que resolveram pegar nas vinhas velhas da família para criarem um vinho singular que juntasse as modernas técnicas enológicas (Pedro é enólogo) e o saber artesanal. Assim nasceu em 2012 a Palwines. “São dois hectares ao todo compostos por microparcelas de vinhas velhas plantadas pelo nosso bisavô”, resume Pedro. A grande diferença é que não deixam de usar como base os processos de há 70 anos, incluindo a pisa a pé: “Fazemos uma espécie de artesanato”. Certo é que o “artesanato” deu nas vistas e logo em 2012 foi premiado pela Comissão Vitivinícola da região do Dão como Grande Vinho do Dão. Com uma produção anual de apenas duas mil garrafas, o Quinta dos Três Maninhos corre o sério risco de se tornar uma das maiores preciosidades do Dão, quer pela qualidade, quer pela raridade.

    Rua do Mondego, 3, Nelas